quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Sobre a inveja (final)

Ultimamente tenho vivido uma situação que hoje me fez lembrar uma estória mitológica: a espada de Dâmocles.

Precisamos, aos poucos e com determinação, raciocinar sobre nossas crenças, desejos, emoções. Fazer perguntas a esses personagens internos. Questionar sua veracidade e razão de ser com a mesma energia e facilidade que usamos pra questionar e analisar as atitudes das pessoas que nos incomodam. Sem autopunição, mas para perguntar a esses personagens íntimos se não há uma outra alternativa que ainda não consideramos e que, se realizada, poderia transformar nosso olhar sobre a realidade... um pouco de cada vez.

A Espada de Dâmocles

Era uma vez, um rei chamado Dionísio, monarca de Siracusa, a cidade mais rica da Sicília. Vivia num palácio cheio de requintes e de coisas bonitas, atendido por uma criadagem sempre disposta a fazer-lhe às vontades.
Naturalmente, por ser rico e poderoso, muitos siracusanos invejavam-lhe a sorte. Dâmocles estava entre eles. Era dos melhores amigos de Dionísio e dizia-lhe freqüentemente.
- Que sorte a sua! Você tem tudo que se pode desejar. Só pode ser o homem mais feliz do mundo!
Dionísio foi ficando cansado de ouvir esse tipo de conversa.
- Ora essa! Você acha mesmo que eu sou mais feliz do que todo mundo?
O amigo respondeu:
- Mas é claro! Olhe só o seu tesouro e todo o seu poder! Você não tem absolutamente nada com que se preocupar. Poderia sua vida ser melhor do que isso?
- Talvez você queira trocar de lugar comigo - disse Dionísio.
- Ora, eu nem sonharia com uma coisa dessas! Mas se eu pudesse ter sua riqueza e desfrutar de todos esses prazeres por um dia apenas, não desejaria felicidade maior.
- Pois bem! Troque de lugar comigo por um dia apenas e desfrute disso tudo. E então, no dia seguinte, Dâmocles foi levado ao palácio e todos os criados reais lhe puseram na cabeça as coroas de ouro. Ele sentou-se à mesa na sala de banquetes e foi-lhe servida lauta refeição. Nada lhe faltou ao seu bel-prazer. Havia vinhos requintados, raros perfumes, lindas flores e música maravilhosa. Recostou-se em almofadas macias. Sentiu-se o homem mais feliz do mundo.
- Ah, isso é que é vida! - confessou a Dionísio, que se encontrava sentado à mesa, na outra extremidade. - Nunca me diverti tanto.
Dâmocles enrijeceu-se todo. O sorriso fugiu-lhe dos lábios e o rosto empalideceu. Suas mãos estremeceram. Esqueceu-se da comida, do vinho, da música. Só quis saber de ir embora dali, para bem longe do palácio, para onde quer que fosse. Pois pendia bem acima de sua cabeça uma espada, presa ao teto por um único fio de crina de cavalo. A lâmina brilhava, apontando diretamente para seus olhos. Ele foi se levantando, pronto para sair correndo, mas deteve-se tremendo que um movimento brusco pudesse arrebentar aquele fiozinho fino e fizesse com a espada lhe caísse em cima. Ficou paralisado, preso ao assento.
- O que foi, meu amigo? - perguntou Dionísio - Parece que você perdeu o apetite.
- Essa espada! Essa espada! - disse o outro, num sussurro - Você não está vendo?
- É claro que estou. Vejo-a todos os dias. Está sempre pendendo sobre minha cabeça e há sempre a possibilidade de alguém ou alguma coisa partir o fio. Um dos meus conselheiros pode ficar enciumado do meu poder e tentar me matar. As pessoas podem espalhar mentiras a meu respeito, para jogar o povo contra mim. Pode ser que um reino vizinho envie um exército para tomar-me o trono. Ou então, posso tomar uma decisão errônea que leve à minha derrocada. Quem quer ser líder precisa estar disposto a aceitar esses riscos. Eles vêm junto com o poder, percebe?
- É claro que percebo! - disse Dâmocles - Vejo agora que eu estava enganado e que você tem muitas coisas no que pensar além de sua riqueza e fama. Por favor, assuma o seu lugar e deixe-me voltar para a minha casa. 

Até o fim de seus dias, Dâmocles não voltou a querer trocar de lugar com o rei, nem por um momento sequer.

Adaptação do
Original de James Baldwin

Retirado de: http://www.direitodefamilia.com.br




domingo, 25 de dezembro de 2011

Sobre a inveja (continua)

"O invejoso perde grande oportunidade de participar da festa e conviver dentro de sua tenda do amor, amigo, com o que há de melhor no banquete da convivência. Fica na esparrela, enlamado e sufocado.

Seria bom entrar no estágio de religioso de Kierkegaard e contemplar Jesus. Tentar humildemente imitá-lo. Caminhar e mão dadas com a encarnação do amor. Por mais dolorosa que seja, não há tempo nem necessidade de devolver as agressões de cada um daqueles que simplesmente não sabiam o que faziam.

Seguir adiante significa entender o que há no alto e o que há depois do que virá primeiro. É assim mesmo, confuso e simples.

Repito, amigo: não é preciso nem agradável entrar na lama.

Penso que seja esse o conceito que o Cristo queria dar ao sugerir que se oferecesse a outra face ao ofensor. Não se pode perder tempo quando a tenda está armada."

Sobre a inveja

Da sétima carta:

(...)

"Padre fábio, a inveja destrói as relações e cria embaraços desagradáveis. (...) O invejoso não deseja o que é do outro, deseja apenas que o outro não tenha o que tem, não seja o que é. O invejoso não tem e não é! Não como uma condição essencial, mas como conseqüência de sua própria negação por desperdiçar tanto tempo e tanta atenção à história alheia. (...). Os aplausos se revezam, o poder é transitório, os holofotes iluminam cenários diferentes. Há espaço para todos, amado amigo, para todos os que se dispõem a trilhar o bom caminho.

Sem querer simplificar esse malfadado sentimento da inveja, arrisco dizer que ele nasce de vidas não vividas ou vidas que, vividas, correm o risco de cessar. Em vez de o corredor entregar o bastão generosamente ao seu sucessor na corrida de revezamento, ele o esconde, faz troça do que vem, desmente o árbitro da competição, que é o próprio tempo. Presenciamos com muita freqüência a angustia dos que não permitem repartir o espaço. Nenhum espaço pertence a ninguém. É por isso que Fernando Pessoa dizia:

A lua brilha inteira em cada lago porque alta vive.

É disso que precisamos, de altivez. De estrelas que se dissipam diante de outras estrelas. De gansos que cedam a vez na dianteira das longas viagens para outros gansos. Trata-se de um amor pela humanidade, como diria Hannah Arendt, de quem já falamos. Trata-se de um sonho comum que deve ter um estadista, um político, um médico, um padre, um escritor, um tecelão. Teçamos toda essa peça única e múltipla de dar dignidade à natureza humana."


Carta entre amigos
Sobre medos contemporâneos
Fábio de Melo, Gabriel Chalita