domingo, 25 de dezembro de 2011

Sobre a inveja

Da sétima carta:

(...)

"Padre fábio, a inveja destrói as relações e cria embaraços desagradáveis. (...) O invejoso não deseja o que é do outro, deseja apenas que o outro não tenha o que tem, não seja o que é. O invejoso não tem e não é! Não como uma condição essencial, mas como conseqüência de sua própria negação por desperdiçar tanto tempo e tanta atenção à história alheia. (...). Os aplausos se revezam, o poder é transitório, os holofotes iluminam cenários diferentes. Há espaço para todos, amado amigo, para todos os que se dispõem a trilhar o bom caminho.

Sem querer simplificar esse malfadado sentimento da inveja, arrisco dizer que ele nasce de vidas não vividas ou vidas que, vividas, correm o risco de cessar. Em vez de o corredor entregar o bastão generosamente ao seu sucessor na corrida de revezamento, ele o esconde, faz troça do que vem, desmente o árbitro da competição, que é o próprio tempo. Presenciamos com muita freqüência a angustia dos que não permitem repartir o espaço. Nenhum espaço pertence a ninguém. É por isso que Fernando Pessoa dizia:

A lua brilha inteira em cada lago porque alta vive.

É disso que precisamos, de altivez. De estrelas que se dissipam diante de outras estrelas. De gansos que cedam a vez na dianteira das longas viagens para outros gansos. Trata-se de um amor pela humanidade, como diria Hannah Arendt, de quem já falamos. Trata-se de um sonho comum que deve ter um estadista, um político, um médico, um padre, um escritor, um tecelão. Teçamos toda essa peça única e múltipla de dar dignidade à natureza humana."


Carta entre amigos
Sobre medos contemporâneos
Fábio de Melo, Gabriel Chalita